
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais gerou uma mudança no cenário do mercado financeiro em menos de 24 horas. Após semanas de otimismo com a possibilidade de uma mudança na política econômica, a reeleição do petista resultou em uma revisão das expectativas sobre o equilíbrio entre gastos públicos, dívida e taxas de juros. No primeiro pregão após o resultado definitivo, o Ibovespa chegou a cair mais de 17%, levando a B3 a acionar o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. Ao final do dia, o índice recuou 13,88%, para 176.608 pontos. O dólar comercial subiu 8,21%, atingindo R$ 5,403, enquanto a negociação intradiária chegou a R$ 5,60.
O cenário atual contrasta com o período após o primeiro turno, quando a liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) havia gerado expectativas de uma política fiscal mais restritiva e maior previsibilidade para a dívida pública. Naquela ocasião, o Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil recuou para cerca de 110 pontos, e a Bolsa atingiu máxima histórica de 209.066 pontos em 9 de outubro. Em outubro, investidores estrangeiros aportaram R$ 13,1 bilhões na B3 em uma semana.
No boletim Focus divulgado na manhã de segunda-feira, antes da incorporação do resultado do segundo turno, a estimativa para a Selic ao fim do próximo ano era de 11,75%. Com a reeleição de Lula, Letícia Moschioni, sócia-fundadora da consultoria Finscale, afirma que o debate econômico deve considerar quanto do gasto público se transforma em produção e renda. Segundo ela, sem compensação permanente para estímulo fiscal, a projeção de crescimento do PIB pode recuar para 1% a 1,2%, enquanto os juros podem subir para 12,25% a 12,75% em 2027. Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, aponta que uma expansão fiscal sem sinalização de ajuste pode fazer com que o custo de financiamento absorva parte do crescimento.
A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central (BC), um aumento de 11,2 pontos percentuais desde dezembro de 2022. A Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta que a dívida chegue a 86,4% do PIB no fim de 2027. Embora o governo tenha apresentado um Projeto da Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2027 com previsão de superávit primário de R$ 18,6 bilhões, a IFI calcula que o resultado será negativo em R$ 86,1 bilhões. Para Araújo, apenas eliminar o déficit projetado pela IFI exigiria uma melhora de R$ 102 bilhões nas contas públicas.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que o mercado exigirá resultados concretos e que um ajuste para alcançar superávit primário de pelo menos 1% do PIB seria necessário para sustentar a queda dos juros até 2028. Ele alerta que o aumento de gastos sem compensação fiscal pode ser neutralizado pela alta do dólar, inflação e encarecimento do crédito, resultando em menos espaço para cortes da Selic e maior pressão sobre a bolsa.
O impacto no crédito é destacado por Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, que afirma que uma expansão de gastos de 1% do PIB pode ter efeito anulado pela reação dos juros e do dólar. Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, reforça que a ausência de compromisso com a sustentabilidade fiscal pode levar investidores a exigir prêmios de risco maiores.
Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que os juros são o principal obstáculo para crédito por 75,9% das empresas em operações de curto e médio prazo. No crédito de longo prazo, esse índice é de 68,7%. O estudo aponta dificuldades maiores para pequenas e médias empresas, com quase metade delas não conseguindo obter financiamento de longo prazo. Além disso, 28,7% das empresas que buscaram crédito de longo prazo o utilizaram para capital de giro, em vez de investimentos em máquinas e equipamentos.
Outro ponto de atenção é a inflação. O Focus projetava IPCA de 4,34% para 2027 e de 5,19% para 2026. Uma desvalorização do real pressiona os preços de produtos importados e influencia as metas do Banco Central. Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest, afirma que o Brasil enfrenta um desafio de produtividade que gastos públicos isoladamente não resolvem.
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