O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou, em carta que justificou sua saída do país, que poderá liderar a oposição nos Estados Unidos de forma mais livre do que os parlamentares e políticos de direita no Brasil. No texto, ele declarou aos membros do PL que eles não possuem a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política e afirmou que assumirá os riscos que eles não podem correr. O senador comparou sua situação à de Rui Barbosa, que se exilou em 1893 para escapar de possíveis represálias do governo de Floriano Peixoto. No final do documento, Flávio afirmou que apresentaria uma estratégia para mobilizar a oposição e o apoio popular por meios pacíficos e legítimos para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil.
Parlamentares e interlocutores próximos ao senador evitaram comentar os planos de Flávio Bolsonaro após sua decisão, tomada sem consulta e de forma rápida após ele ser intimado a entregar seus passaportes. A ordem foi emitida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na noite de domingo (25), após o Tribunal Superior Eleitoral proclamar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pedido da Polícia Federal ocorreu sete minutos após o anúncio da vitória de Lula, medida que Flávio Bolsonaro classificou como sinal de perseguição política.
O jornalista e empresário Paulo Figueiredo, aliado próximo à família Bolsonaro nos EUA, informou na rede X que Flávio pretende exercer uma liderança de caráter "moral" no exterior, e não formal junto aos pares no Brasil. Figueiredo afirmou que a liderança do movimento continuará sendo exercida. Em transmissões ao vivo, Figueiredo declarou que, junto com Eduardo Bolsonaro, Flávio poderá denunciar a perseguição contra a direita por parte de Alexandre de Moraes e de Lula. Ele também mencionou que o senador poderia auxiliar brasileiros perseguidos a obterem acolhida nos EUA e sugeriu que reações contrárias do ministro e do presidente podem complicar a relação entre Brasil e Estados Unidos. Figueiredo esclareceu, nesta sexta-feira (30), que Flávio não pretende se candidatar à Presidência em 2030.
Analistas políticos consultados pela reportagem apontam diferentes perspectivas sobre a atuação de Flávio nos EUA. O analista Alexandre Bandeira afirma que a liderança no exterior permite ao senador criticar e denunciar o governo com menor exposição a decisões do STF, comparando a situação à de Allan dos Santos, mas ressalta que ele possui o peso do nome Bolsonaro. Bandeira questionou a possibilidade de Flávio liderar as bancadas do PL no Senado e na Câmara, afirmando que, embora ele deseje, nem sempre há poder para isso.
A analista política Yolanda Tolentino concorda que Flávio poderá adotar um discurso mais duro fora do alcance da Justiça brasileira, enquanto aliados no Brasil podem atuar nas instituições. Ela aponta riscos para parlamentares no país ao utilizarem termos como "regime de exceção" ou acusações de fraude sem provas, o que pode levar a investigações. Tolentino mencionou que a interlocução com o governo americano pode trazer consequências para Flávio, citando o caso de Eduardo Bolsonaro, condenado pelo STF por coação no curso do processo ao tentar envolver a administração Trump contra Alexandre de Moraes. Ela também listou riscos pessoais para o senador, como pedido de prisão preventiva, difusão vermelha na Interpol e bloqueio de bens.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, aponta que a permanência em solo americano permite a Flávio articular com think tanks conservadores e congressistas republicanos para denunciar abusos de poder e buscar sanções internacionais ou asilo político. No âmbito público, ele destaca a capacidade de realizar transmissões que mantenham a narrativa do bolsonarismo sem risco de silenciamento imediato. Coimbra aponta como limite a falta de presença física em Brasília para negociações diárias com o PL, alertando que uma liderança à distância pode se tornar meramente retórica e permitir que figuras presentes no país assumam a centralidade da direita.
Flávia Magalhães, militante de direita na Flórida, defende que Flávio deva focar no discurso sobre o STF e Lula, mas avalia que Eduardo e Flávio ainda são cautelosos como políticos. Ela afirma que a força deve vir do exterior, comparando a situação à de Nicolás Maduro em 2014. Sobre a atuação junto às bancadas, Magalhães vê limitações por falta de apoio, mencionando que o nome de Flávio não foi utilizado no primeiro turno da eleição.