SUBTULO: Dados do Sisnov indicam que uma em cada cinco notificações de violência contra mulheres no primeiro semestre de 2026 envolve vítimas com algum tipo de deficiência.
O Sistema de Notificação de Violências de Campinas (Sisnov) registrou, no primeiro semestre de 2026, que aproximadamente 20% das ocorrências de violência contra mulheres envolveram vítimas com algum tipo de deficiência. O número de notificações para esse grupo cresceu em comparação aos anos anteriores, passando de 13,6% em 2022 para 23,9% em 2024. Especialistas apontam que esses índices podem não refletir a dimensão real do problema devido à subnotificação, causada por barreiras de acessibilidade e dependência das vítimas em relação aos agressores para locomoção, acesso a saúde e comunicação.
A advogada criminalista Erika Chioca Furlan, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e ex-delegada da Polícia Civil, afirma que a falta de intérpretes de Libras ou recursos em braile em diversas delegacias dificulta o registro de denúncias por mulheres com deficiência. A pesquisadora sugere que unidades básicas de saúde e postos de atendimento podem atuar como pontos estratégicos para identificar casos de violência devido ao maior acesso. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, situações como retenção de cadeiras de rodas, aparelhos auditivos ou medicamentos podem configurar violência doméstica e permitir medidas protetivas de urgência.
O relato de Bruna (nome fictício), acolhida em um abrigo municipal em Campinas, exemplifica os impactos da violência de gênero. Com 41 anos e em tratamento de esquizofrenia, ela relata agressões físicas durante a gravidez, abusos sexuais e exploração financeira por parte do ex-companheiro. A mulher afirma que o agressor utilizava sua condição de saúde para aumentar a vulnerabilidade. Outro caso relatado é o de Joyce (nome fictício), que é surda e não conseguiu acionar a Polícia Militar após sofrer agressões físicas de um familiar durante uma tentativa de romper um relacionamento abusivo, citando barreiras na comunicação como motivo para não ter registrado queixa na época.
A Secretaria de Segurança Pública informou que expandiu a rede de atendimento policial especializado, que cresceu 90% e conta com unidades como as Salas Lilás em Institutos Médicos Legais e o programa São Paulo São Libras, que oferece intérpretes de Libras via videochamada para pessoas surdas. Em Campinas, a rede de proteção inclui a Casa Abrigo da Mulher Sara-M, o Centro de Referência e Apoio à Mulher (Ceamo), localizado na Rua Onze de Agosto, 412, Centro, com atendimento das 8h às 19h, e as unidades do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).