
Dois dias antes das eleições gerais, na sexta-feira, 2 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes assinou a progressão de Débora Rodrigues dos Santos ao regime semiaberto. A notícia ganhou força nacional após a confirmação do resultado que elegeu 121 deputados pelo PL — a maior bancada alcançada por um único partido desde 1986 —, além de garantir 19 das 54 vagas no Senado, consolidando uma influência política gigantesca para o grupo. Neste cenário efervescente, cabe ao magistrado o papel de entregar a manchete mais conveniente da semana: o ato de clemência de oportunidade do ministro magnânimo.
O pedido de progressão estava parado nos autos desde 8 de agosto de 2025. Durante 14 meses, a cabeleireira condenada a 14 anos por um simples gesto — escrever “Perdeu, mané” com batom em uma estátua — permaneceu sem ser conmovida pelo seu algoz. O mesmo homem que negou-lhe a prisão domiciliar por dois anos e passou por cima do *habeas corpus* coletivo defendido pelo próprio Supremo para as mães de crianças pequenas, demonstra agora súbita vocação franciscana, motivada pelo termômetro eleitoral em brasa.
Contudo, o véu da boa vontade não é completo. Na quarta-feira, a defesa recorreu contra o que classificou como um “semiaberto fake”. As restrições permanecem duras: proibição de uso da internet e de dar entrevistas, limitação de visitas e necessidade de licença do carcereiro para sair de casa. Débora continua impossibilitada de levar os filhos à escola, o que leva os advogados a ressaltar que “Não basta mudar o nome do regime nos autos”. O rótulo trocou, mas o veneno da vigilância se manteve intacto.
É evidente que não há arrependimento no psicopata que veste toga; existe puro instinto de sobrevivência política. Quem fez da cadeira no Supremo uma trincheira de perseguição contra qualquer escrutínio e acumulou papéis de vítima, investigador, acusador e juiz nos inquéritos sem fim, sabe farejar a mudança no jogo de forças. Ele sabe que o novo Parlamento terá votos — possivelmente muitos deles alinhados à direita — para cobrar a conta por sete anos de inquéritos perpétuos e censura aos veículos, especialmente quando se trata de uma mãe presa por causa de um batom.
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