
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) recebeu um alerta sobre uma operação suspeita envolvendo duas empresas responsáveis pela produção de Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A Polícia Federal, que investiga o financiamento do longa, também apontou uma “divergência contábil severa” entre o dinheiro enviado a um fundo nos Estados Unidos e os valores com entrada documentada na produtora brasileira.
De acordo com documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), a comunicação ao Coaf foi feita pelo Braza Bank e envolve o recebimento de R$ 975,6 mil pela Go Up Entertainment Ltda., no Brasil, da Go Up Entertainment LLC, sediada nos Estados Unidos. A Go Up é a produtora responsável pelo filme de Bolsonaro. O relatório não reproduz a justificativa específica apresentada pelo Braza Bank para classificar a operação como suspeita, mas a instituição destacou as condições do empréstimo ao comunicar as movimentações ao Coaf. A operação teria ocorrido entre 18 de junho de 2025 e 10 de agosto de 2026.
A Polícia Federal afirma que a produtora brasileira apresentou um contrato de empréstimo de US$ 920 mil para justificar o recebimento. O banco informou que o acordo previa pagamento em 730 dias, aproximadamente dois anos, com possibilidade de prorrogação e sem cobrança de juros ou multas. Os investigadores suspeitam que esse mesmo contrato possa ter sido utilizado para justificar outros recebimentos da produtora brasileira. A hipótese surgiu do cruzamento das informações do Braza Bank com 20 contratos de câmbio entregues pela própria Go Up à investigação. Esses documentos registram remessas da empresa americana à brasileira que somaram US$ 2,8 milhões, equivalentes a R$ 14,8 milhões. As operações foram realizadas por outro banco de câmbio, a Moneycorp, entre junho de 2025 e abril de 2026, com depósitos em duas contas da produtora no BTG Pactual.
Embora o total recebido tenha alcançado US$ 2,8 milhões, os documentos também fazem referência a empréstimos de US$ 920 mil — o mesmo valor do contrato apresentado ao Braza Bank. O relatório afirma que é possível que se trate do mesmo contrato utilizado nas operações de câmbio ou em alguma operação realizada pela Moneycorp. A polícia também encontrou divergências que impedem esclarecer quantos empréstimos foram firmados entre as empresas, pois os contratos de câmbio mencionam quatro datas diferentes de assinatura e outros três não informam a data.
Nesta quinta-feira (15/10), no mesmo dia em que pediu ao ministro do STF André Mendonça mais 90 dias para concluir as investigações, a Polícia Federal determinou que a produtora seja oficiada para apresentar os contratos completos e seus aditivos, no prazo de dez dias. Os investigadores buscam explicações sobre o fundamento contratual para o ingresso de USD 2.817.149,35, montante cerca de três vezes superior ao mútuo de USD 920.000,00. A documentação também não permite identificar as contas bancárias de onde saíram os recursos remetidos pela companhia americana.
O inquérito sobre o filme Dark Horse foi aberto em julho, por determinação de André Mendonça. A apuração reúne mensagens e documentos encontrados no celular de Daniel Vorcaro, incluindo um acordo que previa investimento de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões, na produção. Segundo a Polícia Federal, mensagens e áudios atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL) indicam sua participação na cobrança e no acompanhamento dos aportes. Flávio é investigado no caso. O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e organização criminosa relacionadas ao financiamento do longa.
A origem desses recursos é uma das questões que a Polícia Federal tenta esclarecer ao apontar uma “divergência contábil severa” no financiamento do filme. Segundo os investigadores, a Entre Investimentos e Participações, ligada ao empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, enviou US$ 12,33 milhões ao fundo Havengate Development Fund LP, no Texas, por ordem de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. As sete remessas, feitas entre fevereiro e setembro de 2025, seguiram valores e um cronograma compatíveis com o acordo de financiamento do longa encontrado no celular do banqueiro. Os contratos apresentados pela Go Up brasileira, porém, comprovam o ingresso no país de US$ 2,8 milhões.
A polícia quer reconstruir o caminho entre essas duas etapas: verificar se o dinheiro enviado ao Havengate foi transferido às empresas responsáveis pelo filme e confrontar os valores com as despesas declaradas pela produção. A Go Up apresentou um laudo privado no qual afirma ter gasto R$ 54,2 milhões diretamente no exterior, quantia cuja comprovação será examinada. Segundo a Polícia Federal, a investigação busca esclarecer se os recursos remetidos ao fundo custearam o longa ou se a produção serviu como narrativa de cobertura para a ocultação, simulação e desvio de recursos. A polícia afirma que é indispensável submeter todo o acervo documental e bancário a um exame pericial forense para confrontar os aportes internacionais, a contabilidade da produtora brasileira e o lastro das despesas declaradas.
Mín. 20° Máx. 30°