
A possível ajuda fornecida pelo governo da Argentina para favorecer a fuga de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, após a derrota nas eleições brasileiras, tem gerado tensões na relação entre os dois países. O senador brasileiro deixou o Brasil na semana passada, após afirmar que não reconheceria o resultado do pleito e iniciar um deslocamento rumo aos Estados Unidos, com passagens pela Argentina e pelo Equador. Segundo informações citadas, a ação teria contado com o auxílio da Casa Branca e, possivelmente, da Casa Rosada.
A atuação da gestão de Javier Milei é apontada por meio de um de seus principais assessores, Santiago Caputo, que teria ajudado a organizar a saída do senador brasileiro. Flávio utilizou um jato da empresa argentina Baires Fly S.A., que é alvo de investigação na Argentina por um esquema envolvendo a irmã do líder argentino. O possível envolvimento do governo argentino levou à convocação da encarregada de negócios da Embaixada da Argentina em Brasília, a ministra-conselheira Emilia Cortés, para prestar esclarecimentos ao Itamaraty no dia 29/10.
Flávio Bolsonaro foi alvo de um pedido de devolução de passaportes pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, após a Polícia Federal (PF) apontar risco de fuga do senador após a derrota nas eleições. A medida não foi cumprida e o parlamentar deixou o país utilizando um passaporte italiano cerca de dois dias após o pleito. A partida implica descumprimento de decisão judicial, uma vez que ele havia sido impedido de deixar o Brasil devido à suspeita da PF. O Departamento de Estado dos EUA informou que concederia vistos a Flávio e sua família para entrada no país. O político é investigado em três processos conduzidos pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A possível participação de autoridades argentinas na saída do senador também é questionada por políticos da Argentina. A deputada Marcela Marina Pagano acionou a Justiça Federal de Puerto Iguazú para questionar se autoridades locais atuaram na passagem de Flávio pelo país. Pagano afirma que o governo Milei tem pressionado a Justiça e funcionários públicos da província de Misiones para impedir que provas venham à tona. A parlamentar buscou a Justiça do Brasil para esclarecer as circunstâncias da saída do senador. Embora não existam indícios claros de participação de autoridades argentinas, o jornal O Tempo informou que a Embaixada da Argentina em Brasília teve uma movimentação atípica entre os dias 26/10 e 27/10, data em que Flávio deixou o país. A informação foi confirmada por fontes com conhecimento sobre o assunto sob condição de reserva, e diplomatas argentinos demonstraram preocupação com possíveis vazamentos.
A situação é descrita como o ápice da crise entre Brasil e Argentina, iniciada quando Javier Milei fez ataques pessoais ao presidente Lula. O conflito começou em julho, durante a participação de Milei no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, onde o líder argentino criticou o governo brasileiro, chamou Lula de presidiário e classificou o ministro Alexandre de Moraes como "lixo careca". Em resposta, o Itamaraty convocou o então embaixador argentino para esclarecimentos. Posteriormente, o governo brasileiro determinou a retirada dos embaixadores de ambos os países.
Lula e Milei possuem agendas antagônicas na América do Sul. O presidente argentino foi eleito em 2023 com um discurso de embate contra o petista e nunca realizou uma visita de Estado ao presidente Lula, embora tenha visitado o Brasil duas vezes para encontros com a família Bolsonaro. Durante a última corrida eleitoral brasileira, Milei fez acenos a Flávio Bolsonaro e endossou sua candidatura. Após o resultado que reelegeu Lula, Milei é o único presidente da América do Sul que não parabenizou o brasileiro pela vitória; outros líderes de direita da região já reconheceram o resultado.
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