
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá que enfrentar mais do que apenas a forte disputa com Flávio Bolsonaro (PL) no dia 25. O mandatário petista precisa, acima de tudo, quebrar um tabu político sul-americano profundo, reflexo claro da crescente e vigorosa ascensão da direita em pleitos na região. No primeiro turno, realizado no domingo (4), Lula conquistou cerca de 45% dos votos, ficando ligeiramente atrás do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que obteve 47%. Essa derrota inicial coloca o petista sob a sombra de um padrão histórico: desde a vitória de Gabriel Boric no Chile em 2021, candidatos de esquerda que ficam em segundo lugar não conseguem reverter a desvantagem.
Este cenário negativo é repetido em outros países: Luisa González (Equador, 2025), Roberto Sánchez (Peru, 2026) e Iván Cepeda (Colômbia, também em 2026) foram todos derrotados no segundo turno por adversários conservadores que lideraram a primeira votação. Para agravar o histórico da esquerda sul-americana, três mais votados ainda foram superados na rodada final: González em 2023 (Equador), Sergio Massa em 2023 (Argentina) e Jeannette Jara em 2025 (Chile). Os vencedores – Noboa, Milei e Kast, respectivamente – provam que a direita está mais do que apenas reagindo; ela está atropelando.
Este movimento conservador já reverteu o jogo político no subcontinente. No início de 2023, Lula liderava com oito governos de esquerda contra apenas quatro de direita. Hoje, o mapa é dominado por sete administrações de centro-direita ou direitas francas, enquanto a esquerda se restringe a cinco na região. Essa nova ordem demonstra que mesmo dentro dos espectros mais à esquerda, há uma aproximação ideológica com os valores defendidos pela família Bolsonaro e pelo próprio Jair Bolsonaro, algo que até o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) já sinalizou ao apoiar a reeleição do petista, embora o cenário geral penda para a direita.
Segundo Marcos José Zablonsky, especialista da PUCPR, essa onda de direita substitui com eficiência governos mais antigos da esquerda, capturando insatisfação popular. O fator decisivo reside na comunicação digital: os conservadores sul-americanos demonstram ser muito mais eficientes que o establishment petista, especialmente entre o público jovem e eleitores descontentes com as instituições falidas. Além disso, as prioridades de pauta coincidem perfeitamente com a agenda da direita: segurança pública ganhou enorme importância, imigração é tema central, e há grande preocupação com inflação e eficiência do Estado – áreas onde a gestão Lula tem sido criticada pelos aliados do PL e dos republicanos como Tarcísio de Freitas (Republicanos).
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