
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo projetam que as relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Argentina, Javier Milei, devem se tornar mais tensas após a revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) passou pelo país vizinho antes de seguir para o Equador e, posteriormente, para os Estados Unidos. Leo Braga, professor de relações internacionais na Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, afirmou à Gazeta do Povo que o episódio pode elevar as hostilidades em nível diplomático. Segundo Braga, é provável que Milei utilize o caso para alegar perseguição política contra Flávio Bolsonaro, enquanto o governo Lula poderá utilizar a narrativa de "entreguistas da nação aos EUA" contra os Bolsonaro. O analista ressaltou que as ações encontrarão um limite pragmático, visto que o Brasil já reduziu o status da representação diplomática na Argentina para escritório de negócios, e que as desavenças devem permanecer no campo da retórica e do desgaste diplomático para fins eleitoreiros.
Em entrevista à Gazeta do Povo, o advogado e professor da Universidade de Buenos Aires, Flavio Gonzalez, afirmou que o episódio deve fazer as tensões entre Lula e Milei escalarem sensivelmente. Gonzalez pontuou que as relações refletem a disputa geopolítica entre os Estados Unidos e a China e defendeu que os países devem eliminar o "alinhamento" com potências externas para recuperar a autonomia estratégica e fortalecer o Mercosul.
Lula e Milei já apresentavam desavenças antes da campanha eleitoral de 2026, período em que as trocas de hostilidades aumentaram. O presidente argentino chamou Lula de "ladrão" e "presidiário", enquanto o governo brasileiro decidiu rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina após acusações de interferência no pleito brasileiro por parte de Milei.
Na madrugada de 28, o departamento de migração do governo Milei confirmou que Flávio Bolsonaro, sua esposa e filhas passaram pela Argentina na noite de 27 para seguir em voo ao Equador e depois aos Estados Unidos, onde receberam vistos do governo Donald Trump. Embora o ministro Alexandre de Moraes, do STF, tenha determinado que Flávio não poderia deixar o Brasil após a eleição de 25, o governo argentino afirmou em comunicado que o senador e seus familiares não possuíam impedimentos legais para entrar no país. A imprensa argentina informou que as vans foram escoltadas pela Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA) até o aeroporto local.
Santiago Caputo, assessor de Milei, publicou uma imagem sugerindo uma manobra sobre a chegada de Flávio aos EUA. Segundo o jornal Clarín, fontes da Casa Rosada informaram que Caputo monitorou a operação em Puerto Iguazú. O advogado mexicano Simón Levy, aliado de Trump, afirmou em redes sociais que houve envolvimento do governo Milei na operação para a saída de Flávio do Brasil e mencionou apoio direto de Milei à ação coordenada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Leo Braga projetou que as relações comerciais entre os dois países não serão afetadas pelas tensões políticas, devido à dependência mútua e ao papel da China como parceira comercial de ambos. Sobre o Escudo das Américas e o Mercosul, o analista afirmou que, embora os presidentes possam continuar divergindo sobre esses temas, as limitações pragmáticas devem impedir que as tensões invalidem o bloco ou prejudiquem a economia regional.
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