
SUBTULO: Relatos colhidos pela Polícia Federal detalham procedimentos operacionais e falhas técnicas na aeronave que causou a morte de 62 pessoas.
Depoimentos de um mecânico, um copiloto e uma ex-comissária da Voepass foram colhidos pela Polícia Federal durante a investigação sobre a queda do voo 2283 em Vinhedo (SP), que resultou na morte de 62 pessoas em agosto de 2024. Os relatos descrevem práticas rotineiras da companhia antes do acidente, incluindo o uso de peças de aeronaves descartadas e a operação com equipamentos inoperantes. O acesso aos documentos ocorreu após a Justiça levantar o sigilo do processo.
No depoimento, um mecânico relatou ter recebido ordens de Juliano Pacheco Flores, então gerente do centro de controle de manutenção da companhia, para pintar uma peça da aeronave PS-VPB após um incidente de "tail strike" em março de 2024, em Salvador (BA). O relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) não aponta esse evento como causa da tragédia, atribuindo a perda de sustentação a problemas no sistema de degelo. Contudo, o Ministério Público Federal (MPF) afirma que gestores e pilotos conheciam falhas nesse mecanismo há pelo menos um ano, mas a ausência de registros oficiais permitiu a continuidade das operações.
O mecânico também relatou ter recebido ordens para retirar uma bomba hidráulica enferrujada de uma aeronave descartada no mato para envio direto à operação em Fortaleza (CE), sem revisão técnica em bancada. Ele afirmou que, embora o manual autorize a "canibalização" de peças, estas deveriam passar por revisão antes do uso. Outro depoimento, de um copiloto, indicou que a aeronave PS-VPB operava com o marcador central de combustível inoperante e sem todas as varetas de medição manual (dipsticks), exigindo cálculos manuais para determinar a quantidade de combustível.
Uma ex-comissária descreveu a prática comum de transferir componentes entre diferentes aeronaves da frota quando uma peça apresentava defeito e o prazo regulamentar estava próximo do limite, visando reiniciar o período permitido para operação ao mover a falha para outro avião. A defesa de Juliano Flores Pacheco nega as acusações de práticas irregulares de manutenção. Os depoimentos foram colhidos na fase de inquérito, sem a participação da defesa.
Ao todo, 12 pessoas tornaram-se réus pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e sinistro em transporte aéreo: Marcos Hiroyuki Sato, Alex de Souza Leandro, William Schmidt Agatz, Juliano Flores Pacheco, Raphael Limongi de Figueiredo, Marcel Sarquis Moura, Tiago Passucci Morani, Carlos Alberto Costa, Eric Consoli, Rafael Gimenez Rodrigues, David da Costa Faria Neto e José Luiz Felício Filho. A Voepass informou que seguirá colaborando com as autoridades competentes e reiterou seu compromisso com a segurança operacional ao longo de três décadas de atuação.
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