
Menos de 48 horas após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a enfrentar medidas judiciais, diligências policiais e investigação que, na avaliação de juristas, indicariam cenário de perseguição política. O senador deixou o país rumo aos Estados Unidos após ser intimado pela Polícia Federal, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, para entregar passaportes e cumprir a proibição de deixar o Brasil. A decisão, que tramita sob segredo de Justiça, está relacionada à investigação que envolve o senador e o advogado Willer Tomaz, sob suspeita de lavagem de dinheiro.
O constitucionalista Alessandro Chiarottino afirma que há indícios de perseguição política pela forma como ocorreu a intimação para a entrega dos passaportes e avalia que o senador seria "mais um perseguido político". O constitucionalista André Marsiglia também aponta sinais de perseguição, afirmando que a apreensão dos passaportes de um candidato à Presidência no dia seguinte à eleição transmite a impressão de que as medidas judiciais têm dimensão política. Segundo Marsiglia, o objetivo seria enfraquecer o campo político ligado à família Bolsonaro e reduzir sua capacidade de disputar o poder. O analista comparou a situação de Flávio à trajetória judicial de Jair Bolsonaro e questionou o uso da declaração de Eduardo Bolsonaro como fundamento para a restrição de viagem.
O comentarista político Paulo Briguet abordou o futuro do movimento conservador, argumentando que, em regimes que considera "ditatoriais", não existe oposição institucional, mas "dissidência". O cientista político Gustavo Alves esclarece que oposição é o grupo que discorda do governo e disputa o poder dentro das regras institucionais, enquanto dissidência designa grupos ou indivíduos que contestam o poder estabelecido em contextos onde as possibilidades de oposição formal são consideradas limitadas. Juristas alertam que a utilização do conceito de dissidência para descrever aliados de Bolsonaro ainda é uma interpretação política e não uma classificação jurídica estabelecida.
O ministro Flávio Dino determinou, nesta terça-feira (27), que a Polícia Federal instaure um inquérito sobre a suposta interferência estrangeira nas eleições brasileiras, após pedido do PT. A investigação apurará alegações de repasses à campanha de Flávio por um grupo estrangeiro e possíveis contrapartidas em minerais críticos. O ministro afirmou que não se admite interferência de Estados estrangeiros em assuntos submetidos à soberania brasileira. Além disso, a decisão autoriza a Polícia Federal a buscar evidências de eventual desigualdade entre candidatos nas plataformas digitais.
O receio de consequências judiciais semelhantes às impostas aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 pode contribuir para que apoiadores de Flávio evitem manifestações, segundo analistas. Marsiglia avalia que as punições aplicadas aos participantes do 8 de janeiro já produzem um efeito inibidor entre apoiadores da direita. Chiarottino aponta que a campanha de Flávio também teria falhado ao não realizar uma mobilização ampla durante o período eleitoral.
O segundo turno foi marcado por questionamentos sobre a organização da votação e pela decisão judicial de ampliar o horário das seções eleitorais. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que a prorrogação precisava ter sido planejada e estruturada. O tribunal informou que cerca de 35 mil votos foram registrados em decorrência da ampliação do horário. O criminalista Márcio Nunes destaca que o 8 de janeiro pode funcionar como um alerta sobre os riscos de participar de atos para apoiadores que interpretarem as decisões judiciais como excessivas. O doutor em Direito Luiz Augusto Módolo ressalta que iniciativas judiciais podem trazer consequências para quem as apresenta, citando a multa de quase R$ 23 milhões aplicada ao PL em 2022 por suposta litigância de má-fé.
A relação entre o ministro Alexandre de Moraes e a família Bolsonaro inclui uma sequência de investigações e decisões contra Jair Bolsonaro, Flávio e Eduardo Bolsonaro. O histórico remonta a 2019 com o inquérito das fake news. Em 2024, a Polícia Federal investigou Jair Bolsonaro em casos de fraude nos registros de vacinação e sobre joias recebidas durante seu mandato. Em julho de 2025, Moraes impôs medidas cautelares ao ex-presidente, incluindo tornozeleira eletrônica e restrições de circulação. Em julho de 2026, o senador Flávio Bolsonaro teve as visitas ao pai suspensas por 90 dias após publicar uma carta escrita por Jair Bolsonaro nas redes sociais. Eduardo Bolsonaro foi condenado em junho de 2026 a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo.
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