
As narrativas de assombração em Campinas, que incluem relatos sobre o Chupa-cabra, o túnel da antiga Fepasa e figuras como o Elesbão e Carlos Gomes, são analisadas por especialistas como elementos que revelam fatos históricos e memórias coletivas. Segundo o idealizador do projeto "O que te assombra?", Thiago de Souza, essas histórias não surgem sem motivo, mas derivam de experiências humanas reais, sentimentos e injustiças vividas pela comunidade, muitas vezes relacionadas a episódios dolorosos como a escravidão.
A historiadora Paola Carraro explica que as narrativas de terror ligadas à memória coletiva costumam surgir de dois elementos: uma tragédia e a solidariedade das pessoas diante do ocorrido. Segundo a especialista, essas histórias permitem preservar memórias de grupos historicamente oprimidos que morreram de forma trágica, mantendo vivos registros de violência e injustiça. Ela associa esse fenômeno ao conceito de "patrimônio difícil", que trata de locais e memórias associados a acontecimentos traumáticos, como dor, encarceramento e morte.
Para Paola Carraro, o objetivo da consciência desses fatos históricos não é o entretenimento com a dor alheia, mas sim a compreensão do que ocorreu para evitar que tais eventos se repitam. Thiago de Souza complementa que essas histórias ajudam a construir uma conexão afetiva entre os moradores e a cidade, criando um senso de pertencimento e revelando a identidade cultural da comunidade por meio de seus medos e afetos.
O interesse pelo sobrenatural também atrai visitantes a locais históricos, como o Cemitério da Saudade, podendo despertar curiosidade sobre a história local. No entanto, a historiadora ressalta que essa abordagem exige cuidado para não transformar o sofrimento de pessoas reais em entretenimento. O risco apontado é que o foco nas assombrações faça com que o público esqueça que as figuras citadas foram seres humanos com ambições e sentimentos.
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