
A crise do Ueno Bank, no Paraguai, resultou na renúncia do presidente Santiago Peña na quinta-feira (5) de novembro de 2026. O caso apresenta características similares ao escândalo do Banco Master, no Brasil, liquidado pelo Banco Central brasileiro em 18 de novembro de 2025. No Paraguai, o Ueno Bank teve as operações suspensas em 3 de novembro de 2025 após o Banco Central identificar que seu índice de solvência estava abaixo do mínimo exigido por lei. A instituição possuía cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos estatais, próximo de R$ 4,5 bilhões, incluindo valores do Instituto de Previdência Social paraguaio.
O escândalo no Paraguai ganhou dimensão política devido ao fato de Santiago Peña ter sido acionista do grupo controlador do Ueno até março de 2025. Parlamentares levantaram suspeitas de manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. No Brasil, a liquidação do Master foi motivada por crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do sistema financeiro. O caso brasileiro também envolveu questionamentos sobre a relação do controlador, Daniel Vorcaro, com autoridades dos três poderes.
Especialistas apontam que as principais convergências entre os dois casos incluem problemas na qualidade dos ativos, operações de crédito com empresas ligadas aos controladores e exposição de recursos públicos. No Paraguai, o Ministério Público solicitou investigação criminal e determinou a prisão de oito pessoas ligadas ao banco. No Brasil, a Polícia Federal investiga conexões com agentes públicos, incluindo ministros do STF, senadores e deputados. O constitucionalista André Marsiglia destaca que, enquanto no Paraguai o processo avançou rapidamente devido à ausência de foro privilegiado para as autoridades, no Brasil o caso segue sem consequências práticas imediatas para os envolvidos.
Outro ponto comum é a relação entre instituições financeiras e empresas conectadas aos controladores. No Paraguai, o jornal ABC Color apontou coincidências entre depósitos públicos e empréstimos concedidos ao Grupo Vázquez, que controla o Ueno Bank. No Brasil, a Polícia Federal identificou uma estrutura de crédito vendida ao Banco de Brasília (BRB) com títulos sem lastro de créditos consignados. A economista Regina Martins afirma que a relação entre instituições financeiras e empresas conectadas aos controladores está no centro das apurações em ambos os casos.
Ambas as instituições apresentaram exposição a recursos previdenciários. O Ueno Bank administrava fundos do Estado, enquanto o Master atingiu fundos de aposentadoria de servidores públicos de cerca de cem estados e municípios brasileiros. O economista Rui São Pedro observa que, embora as modalidades sejam diferentes, ambos os casos envolvem dinheiro de interesse coletivo sem garantia de cobertura. Além disso, ambas as instituições apresentaram crescimento acelerado e expansão no mercado antes das crises. No Paraguai, o Banco Central identificou dados maquiados nos balanços do Ueno; no Brasil, a investigação revelou uma dimensão bilionária de operações suspeitas.
As consequências para investidores também são semelhantes. No Paraguai, clientes aguardam decisões judiciais para acesso a valores acima do limite de cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos. No Brasil, parte dos investidores e fundos previdenciários depende da recuperação de ativos após a liquidação do Master. A crise no Paraguai também impacta brasileiros residentes ou investidores no país vizinho, onde o Brasil é a principal origem de investimento direto estrangeiro, com posição de US$ 2,191 bilhões ao fim de 2025.
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